Perguntas ao autor Jorge Afonso

Hoje trazemos o compilado de todas as respostas às nossas perguntas do autor Jorge Afonso.

Esperamos que goste.

 

  • Quando e como surgiu a ideia para “Filhos da Raia”?

— “Filhos da Raia” surgiu quase de forma natural. Nos anos 60, os meus pais emigraram para França a salto, como milhares de outros jovens portugueses, fugindo da miséria que imperava no país. Essas dificuldades ganhavam outra expressão nas regiões do interior e, mais concretamente, em Trás-os-Montes. Em meados dos anos 80 regressei a Portugal com os meus pais. Passei de uma grande cidade como Bordéus para uma aldeia raiana, junto ao Douro e às suas arribas vertiginosas, no extremo do concelho de Mogadouro. Em Bemposta, as histórias de contrabando e passadores faziam parte (e ainda fazem) da identidade cultural das suas gentes. Para construir a narrativa fui buscar o que fui ouvindo da boca dos mais velhos, a experiência dos meus pais e uma dose generosa de imaginação. Podemos dizer que “Filhos da Raia” já nasceu comigo.

  • No geral, como foi escrever o seu livro?

— Nas diversas apresentações faço sempre questão de falar sobre o processo de escrita deste livro. É de facto original e pouco comum. Dois terços do livro foram “paridos” dentro do meu carro, numa altura em que tinha de levar uma das minhas filhas para ter explicações de uma determinada disciplina e estava perto de duas horas à espera, sem nada para fazer. Colocava o portátil sobre os joelhos e abstraía-me completamente daquilo que me rodeava. O processo durou perto de um ano. Por outro lado, as ideias surgiam-me noutro contexto, em momentos inusitados como por exemplo quando corria… Durante 10km de corrida, a mente procura por vezes um escape para não ter de suportar o esforço, o cansaço, o calor, o frio, a chuva que cai, impiedosa, e nos trespassa até aos ossos. Era nessa altura que pensava na trama ou “visualizava” as cenas mais marcantes. Nunca usei um bloco de notas, memorizava as cenas e quando surgia a oportunidade de escrever, as teclas do meu portátil não tinham descanso. Esqueçam, portanto, a imagem do escritor fechado no seu bunker, numa biblioteca, num retiro espiritual, numa cabana no meio de uma floresta ou à beira-mar… A inspiração apareceu-me enquanto “engolia” longos quilómetros de alcatrão.

  • O que gostou mais de escrever no seu livro?

— Gostei obviamente de escrever tudo, mas aqueles momentos de maior suspense, por vezes violentos, frios e crus, foram aqueles que mais me fascinaram devido à intensidade e à mescla de sentimentos que estes podem provocar no leitor (e em mim também!). A descrição da violência doméstica ou da malvadez exige uma linguagem forte e impactante. É um desafio permanente para o escritor.

  • Quais foram as maiores dificuldades na escrita do mesmo?

— Senti imensas dificuldades na recriação de alguns cenários e vivências próprios dos anos 60. Os jovens daquela época pensavam e agiam de forma sui generis. A mentalidade, as vontades eram outras, as prioridades passavam por vezes por coisas básicas, que hoje nos fazem sorrir. A sociedade, o trato entre as pessoas, a miséria em que o país estava mergulhado, a ditadura salazarista… Não é fácil ressuscitar toda essa atmosfera pois eu não a vivi. Como tal, é importante saber ouvir os mais velhos e fazer o trabalho de casa (leia-se, alguma pesquisa).

  • Pretende passar alguma mensagem aos leitores ou futuros leitores de “Filhos da Raia”?

— “Filhos da Raia” retrata uma página incontornável da nossa história. O fascismo, as dificuldades económicas, o atraso social e industrial do país, a inevitabilidade da emigração clandestina, o desrespeito, o poder esmagador dos mais fortes exercido sobre os mais desprotegidos, tudo isso marcou várias gerações de portugueses. Relembra também que as populações do interior sobreviviam como podiam, demasiado afastadas do poder central, dos centros urbanos, abandonadas à sua sorte, sem acessibilidades nem condições de vida dignas. Sempre foi mais fácil virarem-se para o outro lado da fronteira do que procurar algum apoio por parte do estado português. Salazar acenava com uma enxada numa mão e a Guerra Colonial na outra. A Revolução de Abril quebrou as algemas, mas o interior foi ficando para trás. De nada serviu o passado; o presente e o futuro encarregaram-se de enclausurar ainda mais o interior e, principalmente, a região que mais tem sofrido com o isolamento a que foi condenada… os transmontanos continuam esquecidos atrás dos montes. Às vezes sonho de olhos aberto – O que seria de nós se deixássemos de sonhar? – e imagino este livro adaptado ao cinema. Seria uma homenagem fantástica a todos aqueles que tiveram a coragem de remar contra a maré e de fintar o destino. Os transmontanos sempre foram peritos nessa arte.

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